Tropeiras do Agreste: Joana Batista & Cia.

Blog de quintaldassaracuras :Quintal das Saracuras, Tropeiras do Agreste: Joana Batista & Cia.

Joana Batista foi uma fabulosa mulata nascida em 1842 no arraial do Pontal do Mosquete próximo à foz do Vaza-Barris. Como outras suas ancestrais e descendentes, ela comandou uma legendária tropa de burros pelas picadas e tocaias do território brasileiro. Ainda impúrbere Joana despertava olhares cobiçosos por onde passava. Tinha cabelos ruivos. Sedosos! Suas feições eram agradáveis e emolduravam lábios carnudos e bem desenhados. Os mais entusiamados diziam que ela encarnava a perfeição de uma obra renascentista cabocla. As carnes morenas eram tensas e conformadas com o rigor de cinzel de mestre habilidoso. Por olhos Joana ostentava fartas gotas de trepidantes, límpidas e transbordantes esmeraldas. Sua mãe, Dona Branca, era assim chamada porque apesar de possuir pele negra, possuía cabelos lisos como os de uma sinhazinha branca e seu pai ... bem aí já é uma outra história.

Sempre houve quem acreditasse piamente que a menina Branca embuchou do gringo novinho que esteve no Pontal do Mosquete interessado nas propriedades do leite da mangabeira e da resina da aroeira e do grageru. Depois veio-se a saber que ele estava interessado no desenvolvimento de goma de mascar. Mas só depois que Joana nasceu com aqueles olhos tão verdes e o cabelo vermelho é que essa conjectura ganhou corpo definitivamente. Logo que a menina Branca começou a exibir uma indefectível barriga de mulher prenhez, a paternidade foi imediatamente atribuída ao boto. Branca tinha grande desenvoltura no manejo das canoas e vivia sozinha "prá riba e prá baixo" no estuário, varejando; zingando ou a pano, pescando; mariscando, caçando aratus e guaiamuns nas ilhas e canais da região. Até caranguejo uçá, o Ulcides cordatus, ela tirava. E tinha também o samba-de-coco, para o qual ela desabrochou aos 11 anos de idade. Fê-lo, todavia, com tamanha graça e propriedade que obnubilou todas as demais dançarinas. Desde então ela não perdia uma festividade: fosse batizado, novena, reisado, velório ou baile. Numa dessas... ela tanto podia ter embuchado de um cetáceo como de um forasteiro sem que ninguém desse fé. Mas o certo que sempre houve fortes suspeitas de que o pai do filho de Branca fosse o molecote galego do látex e mais, que Dona Zizi, a mãe de Branca, fechava os olhos para o affair dos jovens, tendo feito mais ainda, ela até teria estimulado. O mexerico aumentou ainda mais depois de uma nova visita que John fez ao Pontal, informando que nem o látex de mangabeira, nem as resinas de aroeira ou grageru serviram para o desenvolvimento do seu produto, que ele ficou muito satisfeito, todavia, com o resultados do látex do sapoti, que havia em profusão na Guatemala, onde ele adquiriu meia tonelada e levou para os Estados Unidos onde deu início à fabricação do chicletes. O certo é que depois dessa estada do gringo no Pontal, a família de Branca, de uma hora para outra, começou a contratar gastos incompatíveis com os rendimentos habituais. Levantaram um sobrado. Quando Dona Zizi e Branca tomaram o paquete com destino ao Rio do Prata, os invejosos assanharam-se. Na recém apaziguada região Piratini, elas adquiriram 40 burros e dois jumentos marchadores, cuja compra havia sido acertada por um gaúcho que fazia cabotagem transportando regularmente charque de Pelotas para Maruim e açúcar no retorno. Tropeiros que conheciam trechos do percurso foram contratados para acompanhar as tropeiras. Quase toda a carga que Dona Zizi e Branca transportaram para o Pontal do Mosquete nessa primeira viagem ao sul do país, compunha-se de selas e arreios. Elas ainda voltaram meia dúzias de vezes ao Sul, todas a vezes da mesma forma, para comprar burros, jumentos e arreios.

Mas voltando às especaluções sobre a origem da fortuna de Dona Branca: havia também um time que jurava ter tomado conhecimento através de fulano, beltrano ou sicrano, que ela havia encontrado uma rica botija.

 

Glossário

- impúbere: desprovida(o) de pelos

- cinzel: é instrumento utilizado pelo escultor para entalhar ou cortar (madeira, ferro, pedra etc.), geralmente com auxílio de um martelo. Esse termo vem do latim popular arcaico "císellus": "cortar".

- boto: O boto é um mamífero da ordem Cetacea, nativo da Amazônia e das costas do Atlântico, Pacífico, Índico, Mar Adriático, Mar Arábico, Mar Cáspio, Mar Vermelho e Golfo Pérsico parecido com um golfinho. Os botos são dos poucos únicos mamíferos dessa ordem vivendo exclusivamente em ambientes de água doce, sendo considerados por alguns zoólogos como as espécies atuais mais primitivas de golfinhos.

- varejar: mover a canoa rente à praia, apoiando o remo na fundo para dar o impulso.

- zingar: mover a canoa com impulsão de remo apoiado numa concavidade da popa da embarcação.

- mariscar: pescar com redinha de malha fina rente à linha da costa. Captura-se principalmente camarões, siris, pequenos peixes e lulas, águas-vivas.

- aratu: tipo de pequeno caranguejo de carapaça avermelhada que durante as marés altas, diferentemente do caranguejo-uça que lacra suas tocas cavadas no solo argiloso (lama), alça os galhos mais altos da vegetação de manguezal. Aratjs são frequentemente caçados por grupos que utilizam uma vara com linha amarrada a pedaços de bofe ou outras carnes como isca. Os aratus são muito curiosos, sendo atraídos por ruídos. Os catadores batem em latas ou baldes e assobiam. Os aratus se aproximam e acercam-se da isca. Quando as prende com as quelas são rapidamente lançados numa lata ou balde. Rendem deliciosos catados que povoam moquecas e assados. Aratu é um item refinado da gastronomia ribeirinha.

- guaiamum: também chamados de caranguejo-mulato-da-terra ou fumbamba, o guaiamum é um tipo de caranguejo encontrado do estado da Flórida nos Estados Unidos ao sudeste do Brasil. Habitam o apicum, ecótono de vegetação rasteira entre o ambiente de mangue úmido e a vegetação típica do terreno arenoso da restinga. Os guamuns vivem em galerias escavadas e são capturados com auxílio de alçapãos feitos com latas, madeira e borracha de câmara de ar, nas quais são colocados como isca milho ou coco. São as maiores caranguejo que temos no Brasil. Os machos possuem carapaça azul, com cerca de 10 ou mais centímetros e quelas desiguais, uma grande e outra menor que facilita levar os alimentos à boca, exceção feita à fêmea que normalmente as quelas são de tamanhos iguais. A fêmea, à época de desova assume a coloração com tons na cor creme / amarelada. O macho é bem maio que a fêmea. Adaptam-se à vida em cativeiro e são habitualmente cevados com milho demolhado e pedaços de carne de coco. Produzem pirões excepcionais e são quebrados à mesa.

- samba de coco: Uma dança de origem africana com forte influência indígena, acompanhada de cânticos e marcação do ritmo feita com sapateados e bater de palmas. Sua origem africana está ligada intimamente à formação dos quilombos. Os negros que fugiam das senzalas se reuniam em locais distantes - quilombos, e para passar o tempo ocioso cantavam enquanto praticavam o ritual da quebra do coco, retirando a "coconha" (amêndoa), para o preparo dos alimentos. No Samba de Coco, o tirador do coco, também chamado de coqueiro, é quem puxa os versos, que são respondidos pelo coro dos participantes. Os versos podem ser tradicionais e improvisados e aparecem nas mais variadas formas (quadras, sextilhas, décimas etc.) No Samba de Coco o canto é marcado por cuícas, pandeiros, ganzás, bombos, tambores, chocalhos, maracas, triângulos e zabumbas que acompanham a sanfona. Enquanto dançam, sapateando e pisando forte no chão, os participantes batem palmas e cantam, girando sem parar, desenvolvendo passos e requebros. A indumentária é simples. As mulheres usam vestidos estampados, com saias rodadas e cinturas marcadas, e os homens, calças comuns e camisas identicamente estampadas. Nos pés, usam tamancos de madeira que ajudam a sonorizar o ato da pisada no chão. O samba de coco integra as celebrações do ciclo junino. A festa acontece na véspera e no dia de São João. O ambiente é enfeitado com coloridas fitas, bandeirinhas e flores de papel. Comidas típicas são vendidas em tabuleiros. As festividades tem início com uma novena dedicada a São João. Em seguida ocorre o desfile do rei e a dança vara a noite. A certa altura é acesa a fogueira que queima o mastro em cujos galhos mais altos são atadas prendas como latas de goiabada, pacotes de biscoito recheado, latas de sardinha, espigas de milho e caixinhas de fósforo com uma cédulas graúdas, prêmios que movimentam crianças e adultos quando o mastro vai ao chão.

- cetáceo:  Cetacea é uma ordem de mamíferos aquáticos dividida em duas sub-ordens: 

* As baleias sem dentes, subordem Mysticeti, caracterizadas por apresentar cerdas bucais, que são estruturas que fazem as vezes de peneiras localizadas na parte superior da boca, compostas de queratina. As baleias utilizam as "cerdas" para filtrar plâncton da água. Elas compreendem as maiores espécies de animais.

* A subordem Odontoceti inclui as baleias com dentes; cachalotes; golfinhos e botos. Uma habilidade notável deste grupo é a de localizar as suas presas (peixes e lulas) valendo-se da ecolocalização. 

- látex: é uma dispersão estável (emulsão) de micropartículas poliméricas em um meio aquoso. Um látex pode ser natural ou sintético. Na natureza, látex pode ser encontrado como uma secreção esbranquiçada, raramente amarelada, produzida por algumas plantas como a papoula, a seringueira e o Caucho (castilloa) quando seus caules são feridos e que tem a função de, uma vez consolidada com a oxidação, provocar a cicatrização do tecido lesado, por onde fluiu. Largamente utilizado pela indústria para confecção de preservativos, luvas e drenos cirúrgicos. A grande maioria das plantas que produzem látex representa um sério risco para a saúde, especialmente quando cruas. Isso ocorre porque o látex tem muitas substâncias tóxicas. Um exemplo é a mandioca-brava (presença de ácido cianídrico, precursor do cianureto, paralisante do sistema respiratório). Além da borracha em si, o látex serve para vários outros usos. São geralmente defumados e aplicados sobre tecidos industrializados.

- affair: caso amoroso; ligação; pulada de cerca; infidelidade conjugal; sacanagem.

- Piratini: Na língua tupi-guarani significa "peixe-barulhento". A sede do governo estadual do Rio Grande do Sul foi denominada Palácio Piratini. O município de Piratini foi criado em 1830, por decreto imperial de 15 de dezembro, e integrado pelos distritos de Canguçu, Cerrito e Bagé, até o Pirai. Em 1835, nela instalou-se a capital da nova República Farroupilha. Em 1846 perdeu o município de Bagé então criado e, em 1857, o de Canguçu, então criado, e que absorveu o distrito de Cerrito, que fez parte de Canguçu por um século. Piratini em 1878 perdeu o seu distrito de Cacimbinhas, tornado município, e hoje Pinheiro Machado.

No cenário político do país, Piratini tornou-se célebre durante a Revolução Farroupilha, por ser a capital da República Rio Grandense.

- cabotagem: é a navegação realizada entre portos interiores do país pelo litoral ou por vias fluviais. A cabotagem se contrapõe à navegação de longo curso, ou seja, aquela realizada entre portos de diferentes nações. A cabotagem é denominada como transporte marítimo realizado entre dois portos da costa de um mesmo país ou entre um porto costeiro e um fluvial. Caso, a navegação ocorra entre dois portos fluviais, então não é considerada cabotagem e sim navegação interior. Existe ainda o termo "cabotagem internacional", o qual é utilizado freqüentemente para designar a navegação costeira envolvendo dois ou mais países. O transporte de cabotagem foi muito utilizado na década de 1930 no transporte de carga a granel, sendo o principal modelo de transporte utilizado quando as malhas ferroviária e rodoviária apresentavam condições precárias para o transporte. O termo é derivado do nome de família do navegador veneziano do século XVI Sebastião Caboto, que explorou a costa da América do Norte ao margeá-la, da Flórida à foz do rio São Lourenço, no atual Canadá. Na América do Sul, Caboto, ao serviço da Coroa de Espanha, adentra o rio da Prata, pelo litoral, em 1527 em busca da mítica Serra da Prata, numa expedição que prolonga até 1529, sem lograr o seu objetivo. Por causa desses feitos na navegação costeira e em sua homenagem a estratégia de navegação costeando o litoral recebeu o nome de cabotagem.

- charque - Charqueada é o nome que os brasileiros dão, no estado do Rio Grande do Sul, à área da propriedade rural em que era produzido o charque (onde se "charqueia" a carne). Uma quantidade de galpões cobertos, onde a carne salgada era exposta para o processo de desidratação. A indústria saladeiril e o ciclo do charque (séc. XIX), deixaram suas marcas no extremo sul do Brasil, tornando Pelotas referência histórica e cultural. Toda a produção de charque - como de resto as produções mineiradora e agrária da Brasil da época, era baseada no trabalho dos escravos. Hoje, poucas das antigas charqueadas existem, apenas as instalações , mantidas como marco turístico regional. As charqueadas de Pelotas. A consolidação das charqueadas, grandes propriedades rurais de caráter industrial, só se dá no século XIX, às margens dos arroios Pelotas, Santa Bárbara, Moreira e canal São Gonçalo. O gado, matéria-prima, era proveniente de toda a região da campanha rio-grandense, era fruto da multiplicação de exemplares trazidos pelos espanhóis para a Banda Oriental no início do século XVII. As reses eram introduzidas em Pelotas , entrando através do Passo do Fragata e vendido na Tablada, grande local dos remates na região das Três Vendas. A safra era sazonal e durava de novembro a abril. As charqueadas tinham em média 80 escravos, ocupados nos intervalos da safra em olarias nas próprias charqueadas, derrubadas de mato e plantações de milho, feijão e abóbora nas pequenas chácaras que cada charqueador possuía na Serra dos Tapes, onde ficam hoje a Cascata e as colônias de Pelotas. Os navios que levavam o charque não voltavam vazios. Traziam mantimentos, livros, revistas de moda, móveis, louças da Europa - e açúcar do Nordeste, consolidando a tradição do doce em Pelotas. "Embora aqui não se plantasse cana-de-açúcar, os doces de Pelotas chegaram a ser rivais dos do Nordeste, região açucareira por excelência." Em 1820, eram 22 charqueadas (depoimento de Saint-Hilaire) e, em 1873, 38. "Número máximo que encontrei, num relatório da Presidência da Província", complementa. O número de abates, num total de 400 mil cabeças de gado por ano. Simões Lopes Neto, na Revista do Primeiro Centenário de Pelotas, editada em 1911, comenta que até aquela data foram abatidas 45 milhões de reses e umas 200 firmas se sucederam. Esta indústria promoveu o surgimento e crescimento de várias atividades econômicas colaterais, como a a atividade hoteleira, comercial e cultural. Nesta última sobressai a construção do Teatro Sete de Abril, que é o mais antigo em atividade no país, nos dias de hoje. Esta tradição pode ser revivida no núcleo das charqueadas, por meio de visitas orientadas. Outra opção de turismo é a "Rota das Charqueadas", um passeio pelas mansas águas do Arroio Pelotas de onde se avistam as moradas que faziam parte do ciclo do charque, tais como as Charqueada São João, construída em 1810, do português Antônio Gonçalves Chaves e Charqueada Santa Rita, construída em 1826, de propriedade de Inácio Rodrigues Barcelos. Também podem ser visualizadas as charqueadas do Barão de Jarau, Barão do Butuí, Boaventura Rodrigues Barcelos, Barão de Arroio Grande, Bernardes Rodrigues Barcelos e Antônio Oliveira de Castro (Conselheiro Maciel). De acordo com Daniel Balhego, após extensa pesquisa bibliográfica, até 1777 a produção da carne conservada através do sal e do sol era exclusividade do nordeste. É nesse referido ano que ocorre o Tratado de Santo Ildefonso (1777), trazendo estabilidade bélica e política à região, campo de disputas entre as coroas rivais da ´Península Ibérica, e a trágica "Seca dos três Setes" que irá dizimar grande parte dos rebanhos bovinos daquela região. Outro fator trágico foi o extermínio dos índios Guaranis pertencentes aos Sete Povos das Missões e a expulsão dos padres jesuítas que conjuntamente criavam um número significativo de bovinos que, abandonados, foram se multiplicando de forma considerável, o chamado gado chucro, ou gado cimarrón, a ponto de chamar a atenção dos bandeirantes que se dirigiam até o terrítório Rio Grandense não para escravizar indígenas ou procurar pedras ou metais preciosos, mas sim para capturar mulas e bovinos para a posterior venda nas feiras paulistas, principalmente Sorocaba. O ano de 1779 assinala a chegada na cidade de Rio Grande, aos 22 anos, do português José Pinto Martins, vindo de Aracati cidade do Ceará. Mas é nas margens do Arroio Pelotas, na Freguesia de São Francisco de Paula (mais tarde Pelotas), que a instalação da primeira charqueada será possível. O arroio irá dar a hegemonia da produção de charque aos pelotenses até que se instale as primeiras ferrovias. A insalubridade do ambiente fará com que o núcleo urbano diste 6 km do núcleo fabril. A mão-de-obra escrava encontrará no trabalho do charque seu maior flagelo. O Arroio Pelotas liga-se ao Canal São Gonçalo , um canal natural de ligação entre a Lagoa Mirim e a Lagoa dos Patos. A Lagoa dos patos, que por sua vez, abre-se no Oceano Atlântico na barra de Rio Grande. Uma das causas foi a abolição da escravatura: houve o desaparecimento dos compradores que com o charque alimentavam seus escravos nas mineiração do ouro de Minas Gerais e plantações de cana-de-açucar na América Central e América do Sul , principalmente. Outra, foi o advento dos frigoríficos, na década de 1910. Em 1918, restavam apenas cinco charqueadas em Pelotas. "O coronel Pedro Osório, que começou como charqueador, passou a plantar arroz em 1905, transformando-se no maior industrial do setor no mundo e conhecido como Rei do Arroz". Fonte: Alvarino da Fontoura Marques - Episódios do Ciclo do Charque.

 - botija

quarta 27 janeiro 2010 17:15 , em Tropeiras do Agreste


A Fulgurante Visão da Tropa

Blog de quintaldassaracuras :Quintal das Saracuras, A Fulgurante Visão da Tropa

Tropa de Mulas de Jean Baptiste Debret (1768-1848)

 

- Meu barão! Meu barão é Joana! A tropa apontou no boqueirão!

Esbaforidas, as pequenas mucamas, para não perder nenhum detalhe, acotovelavam-se na balaustrada do alpendre e anunciavam com alarde a visita esperada com crescente expectativa desde a véspera.

  As negras de mais idades também, onde quer que estivessem, descuidavam-se dos seus afazeres espichando-se para não perder os detalhes da cena que tinha lugar no acesso principal da casa grande.

O motivo da histeria dessas últimas atendia pelos nomes de Tiziu e Miatã, respectivamente ferreiro e arreador da tropa do Vaza-Barris e lugares-tenentes da formosa mulata. Já de muito longe as cascatas de cascavéis nas impecáveis arreatas das mais impressionantes montarias que as picadas do Cotinguiba assistiam desfilar arrancavam chispas sob a luz do sol e juntando-se aos sons das ferraduras dos cascos dos animais castigando o solo, à grande distância anunciavam a sua inconfundível sinfonia. Aroeira, a mula madrinha, faceira como só ela sabia ser, exibia sua vaidade estrepitosamente na cabeça do cortejo.

As pequenas servas acotovelavam-se, meneando coquetemente as rodas das brancas saias. Por um átimo estacaram galvanizadas. Cessam os cochichos frenéticos quando Miatã, sem nem ao menos diminuir a marcha de Coco, o formidável burro branco de oito palmos que se fazia notar a grande distância pela avantajada estatura e tamanha a alvura da sua pelagem, ficou de pé sobre a montaria e saltou desaparecendo em meio à densa copa de uma das primeiras mangueiras carregadas da formidável aléia que conduzia à sede do Engenho. A espetáculo encerrou-se com o mergulho de Spartacus, um dos seus carcarás que escoltava a tropa entao. O falcão do agreste desapareceu no mesmo ponto que seu companheiro. Em nenhuma das ocasiões anteriores em que a fabulosa caravana adentrou os limites da impressionante propriedade, o índio jamais se aproximou da moradia senhorial. Quando muito dava uns bordos pela senzala, curral e casa de purgar sempre sob os olhares compridos das fêmeas e de contida reserva dos machos.

Desta feita o arrevesado senhor do engenho não demonstrava qualquer ansiedade. O mesmo não se podia dizer do seu hóspede. O galego estava visivelmente eufórico com a perspectiva de encontrar o jovem casal que já se encontrava à distância de um tiro de pedra. Ele não se conteve e adiantando-se ao anfitrião já os cumprimentava efusivamente pondo-se nas pontas dos pés apesar dos seus quase 2,0 m , para alcançá-lo antes mesmo que apeassem à sombra de uma imponente gameleira. Os animais da numerosa tropa ainda se acomodavam num arremedo orquestrado de alvoroço sob a sombra do colossal vegetal e o gringo já se desmanchava em salamaleque, tentava monopolizar a atenção da perfumada ninfeta da cor de sapota , ao longo da calçada que conduzia à monumental escadaria. O seu português era fluente, os guturais “erres”, todavia, revelaram prontamente sua origem bávara para os experientes aventureiros, que estavam acostumados a lidar com viajantes dos oito ventos. Ao se dar conta que Heinrich ultrapassara e deixara propositalmente Tiziu para trás, enquanto tentava fazer com que ela se adiantasse, Joana desvencilhou-se do seu assédio e retornou para o lado do seu companheiro. Assim que colocaram-se ao abrigo do sol escaldante, o anfitrião cuidou das apresentações:

- Bom dia senhores! Minha cara Joana, chamei-os porque o nosso amigo Herr Heinrich vön Württemberg deseja contratar seus serviços.

O gringo que já tinha disposto sobre um aparador alguns livros com desenhos de animais e plantas brasileiros, tomava-os um após outro, apontando alternadamente gravuras, pedindo para que o casal confirmasse conhecer: sarcuras, iguanas, lobos guará, a fruta do lobo, baunilha e uma espécie de planta que os tropeiros só tinham conhecimento da existência no alto da Serra de Itabaiana, onde estiveram acompanhando um outro gringo que além de plantas e animais, procurava também ouro. O gringo todo satisfeito passou o resto da tarde falando de amenidades. Joana e Tiziu falaram do clima e da vegetação do Agreste e da Caatinga. A família e a criadagem admirava-se da fluência de ambos no uso da Língua Inglesa e não se deram conta de um detalhe que a Tiziu não passou despercebido: um certo brilho de cobiça na expressão do “naturalista”, quando o assunto era o Serrote de Itabaina. Joana entretida com as perguntas das garotas, estava tão desapercebida que não atentou para tal circunstância. No resto de toda a tarde os familiares do barão, além de todos os escravos da casa, cercaram Joana fazendo perguntas sobre as suas aventuras nas trilhas.

Um dos baús do naturalista resvalou quando Tiziu auxiliava os escravos da fazenda a enganchá-lo nos alções da cangalha, revelando que seu conteúdo constituía-se de apetrechos muito mais úteis a um mineralogista do que zoólogo ou botânico, como ele fez questão de aparentar, quando apontava para desenhos de lobos guarás nas publicações de Johann Karl Wilhelm; da fruta do lobo nos tratados de Saint-Hilaire; de saracuras e iguanas nos, de Spix. Não sabia o gringo, entretanto, que ambos os companheiros de Joana liam e falavam inglês e francês e tinham amplos conhecimentos de latim, o que lhes permitia enorme desenvoltura para lidar com a nomenclatura científica e textos técnicos.

 Na primeira oportunidade quando essas reservas, porém, já se tinham evaporado completamente, enquanto recolhiam madeira para preparar a penúltima refeição naquela memorável tarde...

 

 Glosário:

Balaustrada: Parapeito de uma varanda elevada.

Boqueirão: Longa via de acesso desprovida de pavimentação, ladeada por cercas ou muros contínuos.

Cascavéis: Enfeites metálicos aplicados nos arreios das montarias, principalmente nos peitorais, que, ao se chocarem entre si com o movimento, produzem um som que lembra o de um chocalho da serpente.

Estrepitoso: adj. Que produz estrépito; estrondoso, tonitruante, barulhento, ruidoso, fragoroso: o troar estrepitoso dos canhões. Fig. Que dá na vista, que é notório: escândalo.

Coquetemente: De forma volúvel.

Aléia: Longo trecho de uma via ladeada por árvores.

Carcará: O falconídeo do Agreste.  Também conhecido por carancho. Seu nome científico é Polyborus plancus; a subespécie brasileira é P. p. brasiliensis. É tido como ave tipicamente brasileira. No entanto, possui uma distribuição geográfica ampla, que vai da Argentina até o sul dos Estados Unidos, ocupando toda uma variedade de ecossistemas, fora a cordilheira dos Andes.

COMPTE_BLOGOF quintaldassaracuras : Quintal das Saracuras, A Fulgurante Visão da Tropa
COMPTE_BLOGOF quintaldassaracuras : Quintal das Saracuras, A Fulgurante Visão da Tropa
Carcará

O carcará é facilmente reconhecível quando pousado, pelo fato de possuir uma espécie de solidéu preto sobre a cabeça, assim como um bico adunco e alto, que assemelha-se à lâmina de um cutelo; a face é recoberta com um ceroma, cuja cor varia da branca à vermelha. O peito é de uma combinação de marrom claro com riscas pretas, de tipo carijó/pedrês. As patas compridas e de cor amarela; em voo, assemelha-se a um urubu, mas é reconhecível por duas manchas de cor clara na extremidade das asas.

Fontes: Dicionários On-line Google, Wikipédia e Aurélio.

 

 

quarta 27 janeiro 2010 23:24 , em Tropeiras do Agreste


Canto e imagens de saracuras que vivem nos nossos quintais

 A Saracura é uma ave gruiforme da família Rallidae. O gênero Aramides distribui-se por todo o litoral brasleiro. Expulsas do seu habitat natural famílias de saracuras passam a viver em nossos quintais.

.

http://www.fotolegal.com/saracura.htm

http://www.dicionarioinformal.com.br/definicao.php?palavra=saracura&id=527

quinta 28 janeiro 2010 00:12 , em fauna, sons, flora, frutos, flores & cores


Valquírias Tubinambás

Blog de quintaldassaracuras :Quintal das Saracuras, Valquírias Tubinambás
Valquírias tupinambás.
Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009 16:24:17

Com burros e mulas comprados em Minas Gerais, Dona Zizi estabeleceu a rota Sertão do São Francisco - Pontal do Mosquete. Ela foi contratada para proceder a remoção do meteorito Bendegó, uma vez que o Vaza-Barris era o ponto do litoral mais próximo a Monte Santo.
Em 1843 às vésperas da deflagaração da Guerra dos Farrapos, Dona Zizi e Branca adquiriram uma tropa de burros e dois jumentos marchadores  num povoado do Rio Grande do Sul  onde
Branca enamorou-se de um sergipano que a acompanhou por boa parte do trajeto. O gualpo moço ia servir como alferes na região e comprar terras justo em onde depois desenvolveu-se  Cacimbinhas e onde hoje existe a cidade de Pinheiro Machado, batizada em homenagem ao senador assassinado por Mâncio de Paiva Coimbra, natural de Cacimbinhas.

Foi num bosque gaúcho, ao crepitar de pinhões se cos numa fogueira às margens de um arroio cantador, sob uma sinfonia de cricrilar de insetos e sons de cigarras, com ocasionais urros de Bugios que momentaneamente alvoroçava as aves, numa bela noite de verão que a menina Branca viveu seu segundo amor.

...

Aos 14 anos Joana assumiu a tropa e continuou o trânsito entre até a Foz do Vaza-Barris e o Arraial de Passagem na margem direita do Rio São Francisco e participou efetivamente do processo de transferência da capital da província de Sergipe D'El Rey de Sãum Christovãm para Aracaju.

A quarta tropeira, Joana II, Iaiá Curtis,  participou de algumas da expedições de Euclides da Cunha e a saga dessas formidáveis encatadoras de montarias encerra-se com Maria Joana que entre outras aventuras foi testemunha da Revolta do Contestado e fez várias viagens até Saum Phrancisco do Sul no Desterro. As peripécias de cinco gerações destas Valquírias tupinambás na condução de uma excepcional tropa é o que me proponho a reunir doravante. Originárias de realidade caiçara, onde os homens dedicavam-se à vida estuarina-marinha, a vida das cinco mulheres ajuda a contar a história que ia pelas picadas, praias e rios deste pais em um tempo que as riquezas dos Sertões viajavam no lombo de burros.

Por Joana Batista Bacon Curtis, a terceira tropeira do Agreste suspiraram nobres e marinheiros. Ela namorou demais, mas o que vai ocupar a primeira parte desse relato é a excepcional relação dos tropeiros com os animais da tropa e as aventuras que eles viviam pelos sertões.  À formidável l inteligência das bestas de carga, muito mais do que às medidas do Gabinete imperial ou do conspiradores do Cotinguiba, deve-se grande parte do sucesso na operação de transferência da Mesa de Rendas e do Paiol e Casa de Armas Provincial da antiga capital de Sergipe D’El Rey para a região canavieira do Cotinguiba, sem que nenhuma rusga fizesse vítimas desnecessárias. Às excepcionais qualidades desses animais deveu-se em grande parte o sucesso da transferência, nas caladas da noite, de todo o acervo institucional e o tesouro que restava na Casa de Rendas e as armas e munições do Paiol da antiga capital de Sergipe D’El Rey, Saum Chistóvaum, quarta cidade mais antiga* do Brasil, para as plagas mbarãcagüpe*, consolidando o controle alfandegário no Vale do Rio Cotinguiba, aspiração única à época da jovem aristocracia canaviera sergipana. Joana & Cia. percorreram os sertões, pontuando pousos e currutelas na rota dos tropeiros dando oportunidade à descrição de aspectos da história e folclore do Nordeste, Sudeste e Sul do país.

Sua mãe, Dona Branca da Capela fez história como bodegueira e conselheira da sua comunidade, o Arraial do Pontal do Mosquete. O lugar deve seu nome a um mosquetão que deu na praia no dia seguinte a uma furiosa tempestade de Vento Nordeste. Dona Branca é lembrada como uma das mais astuciosas habitantes do lugar. Uma graciosa cabocla de pele negra e cabelos sedosos qual os de uma iaiá branca, o que motivou seu apelido, embuchou de Joana aos 13 anos incompletos, o que não era raro na época. Não se atinou de pronto quem seria o pai da criança. Branca de Zizi era exímia 
nadadora além de ser mestra na arte da zinga e não raro vivia para cima e para baixo numa canoa, no rio, nos canais, remando, velejando e pescando próximo a grandes cardumes de botos. O pai da criança não foi apontado durante toda a gestação, logo se atribuiu ao boto a sua paternidade. A Lenda fortalecida pelo fabuloso espetáculo que os cetáceos estuarinos promoviam ao acompanhar a canoa na qual ela navegava. Outra das geniais qualidades de Joana era participar da tripulação de corridas de canoas, demonstrando nos estais da vela de popa, uma maestria que nenhum outro grumete obnubilava.

Depois de bordejar o litoral sergipano, detendo-se nos estuários da Província de Sergipe D'el Rey pesquisando as propriedades do látex da mangaba e da aroeira para eventual utilização na fabricação de chiclete e/ou da borracha, o garoto John Curtis voltou para o Maine e só  tomou conhecimento do seu rebento tropical por carta.  Como ele havia arribado antes que Dona Branca desse fé que estava de barriga, até que ele enviasse um emissário ao Pontal e passasse a lhes prover integralmente, dirimindo quaisquer dúvidas quanto à paternidade, colocando uma pá de cal nos falatórios, Joana foi tida como filha do boto.

Enquanto as outra garotas do Pontal do Mosquete ocupavam-se com brincadeiras infantis, fazendo cozinhados e cuidando exclusivamente de serviços domésticos, Joana ocupava-se de auxiliar os homens nas pescarias, corridas de canoas e lida com a tropa e o gado juntamente com seus fieis parceiros de folguedos infantis e de outras descobertas próprias da idade: Miatã, um índio corrido da extinta tribo dos Pacatubas, que perambulou pelo Agreste e foi parar no Pontal acompanhado de Tiziu, um negrinho gago até o final da adolescência, que foi escravo de um religioso tirano de um colégio de padres localizado em Alagoas, na margem esquerda do São Francisco, onde ele trabalhou como negro de ganho numa oficina como ajudante de ferreiro.
Por guardião, Joana contava com Moisés, um lobo guará que resgatou com a indefectível ajuda de toda a tropa de um abraço de uma uma imensa Boa.
 
Continua.

quinta 28 janeiro 2010 00:19 , em Tropeiras do Agreste


Delta do Vaza Barris, o paraíso das tropeiras

Blog de quintaldassaracuras :Quintal das Saracuras, Delta do Vaza Barris, o paraíso das tropeiras

As Tropeiras do Agreste - Mais de um século de tropeirismo de Nordeste a Sul

- Dona Zizi (Elisabete Roriz - 1794 - 1849) + Leopoldino Batista;

- Dona Branca (Feranda Roriz Batista (1809 - 1885) + Jonh Bacon Curtis (aventureiro e investidor americano envolvido no processo de invenção do chiclete);

- Joana Batista Bacon Curtis (1842 - 1900) - Foram tantos os amores de Joana. Em São Francisco do Sul ela despertou o mais tórrido deles, muito provavelmente o pai de Joana Filha;

- Iaiá Curtis, Joana B. B. Curtis Filha (1870 - 1837) acompanha Euclides da Cunha à Região de Canudos. Deixa manuscritos que a filha lê e relata ao redor de fogueiras em pousos da tropa;

- Maria Leonídia Joana, a última tropeira (1892 - 1968). Em 1915 acompanha a Revolta do Contestado em Santa Catarina.

 http://bit.ly/dt2UfF

quinta 28 janeiro 2010 00:24 , em Tropeiras do Agreste


|

Abrir a barra
Fechar a barra

Precisa estar conectado para enviar uma mensagem para quintaldassaracuras

Precisa estar conectado para adicionar quintaldassaracuras para os seus amigos

 
Criar um blog